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ISQ, torque e estabilidade primária do implante dentário: no túnel do tempo

  • Foto do escritor:  PAULO ROSSETTI
    PAULO ROSSETTI
  • 18 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de mar.


A estabilidade do implante dentário e o tecido ósseo. Foto: I.A.
A estabilidade do implante dentário e o tecido ósseo. Foto: I.A.

Se você nunca fez um implante dentário...


Todo dentista, antes de ser implantodontista, deveria colocar alguns parafusos na parede da cozinha, da sala, da varanda, etc. Porque é só assim que se aprende o que é um parafuso. E veja que não estou falando de colocar um prego na parede, porque precisamos de um elemento mecânico que tenha roscas.

 

Se o implante dentário não tivesse as tais roscas, como seria? Aliás, ainda existe algum implante dentário no mercado atual nacional e internacional sem roscas?


E agora é que vem a brincadeira: alguns conceitos na odontologia começam bem, mas a comunicação sofre ao longo do caminho.

 

Eu tenho certeza que você já ouviu que a “estabilidade inicial do implante foi de 35N.cm”. Eu sei porque me pego diversas vezes falando essa cantilena.  A literatura é confusa a esse respeito.

 

O que se passa é que a estabilidade inicial de um implante dentário definitivamente não tem nada a ver com os valores de torque de inserção final.

 

Explicando: se o implante dentário tem roscas e vamos coloca-los dentro do tecido ósseo, haverá algum atrito entre as superfícies das roscas e esse tecido natural. A medida desse atrito é o que gera uma força contrária no seu motor ao tentar colocar o implante.

 

Essa força contrária, na realidade, é o cisalhamento entre a superfície da rosca ao encontrar a resistência local (o tecido ósseo). Assim, o número mágico que sai no visor do seu motor eletrônico seria, segundo a Física, a medida da resistência ao cisalhamento, ou seja, a soma de todos os cisalhamentos em todas as áreas das roscas do seu implante.

 

Assim, é por isso que mudar a geometria das roscas do implante, o ápice do implante, e seu tipo de superfície (mais rugosa, por exemplo) pode (e deve) aumentar o valor do cisalhamento em N.cm.

 

Ou, como na situação atual, você pode “osseodensificar” o local onde a qualidade óssea é pobre.

 

O osso cortical é mais resistente ao cisalhamento do que o osso medular? Sim! Então, é claro que o torque “vai crescer”, ou deveria crescer, quando o pescoço começar a tocar essa cortical óssea.


Aqui, outro ponto importante: é preciso tomar cuidado com a altura de osso cortical. Os implantes contemporâneos, no modelo de colocação subcristal (abaixo do topo do rebordo), podem se "perder" dentro do osso alveolar.


Espero que isso nunca tenha acontecido com você, especialmente nos casos de cirurgia de levantamento da membrana do seio maxilar.

 

Já a estabilidade inicial ou primária tem outro significado: se, ao colocar o implante dentário, ele não “fica bambo” nem para vestibular, lingual, mesial ou distal. No ditado popular, se ele “parar em pé”, tudo certo.

 

A literatura mostra que é possível termos valores tão baixos quanto 20N.cm e ainda assim o implante ficar estável (sem oscilação vestibulo lingual ou mesiodistal).

 

Esse tipo de raciocínio não é fácil de entender de primeira, mas com o tempo, aceita-se.

 

Então, vamos para outro raciocínio: o tal ISQ, que mede a rigidez da interface. O ISQ está mais perto da estabilidade primária do implante no dia da sua colocação. Até a palavra conceitual é diferente até mesmo na língua inglesa: stiffness.

 

Perceba que a palavra “rigidez” é o contrário de “sem estabilidade”. E ela pode ser avaliada nos sentidos mesial-distal, vestíbulo-lingual. Se o implante for unitário e estando entre dois dentes adjacentes, há alguma forma de contê-lo, mas isso é impossível no sentido vestibulo-lingual.

 

A literatura mostra se os valores ISQ, quando pequenos inicialmente, podem aumentar porque o osso sofre maturação? Alguns valores ISQ caem ao ponto do implante não se manter mais na boca. Ainda, esses valores iniciais podem ser altos, sofrer uma queda, e depois aumentarem?

 

Mas e o valor correspondente aos N.cm?

Chegamos no assunto da carga imediata, definido muito tempo atrás num famoso consenso: se o implante atingisse os 30-35Ncm, a carga imediata poderia ser aplicada.

 

Até aqui, tudo bem, desde que você pense da seguinte forma: o paciente vai mastigar do mesmo jeito. Verticalmente, precisamos de pontos de contato. Nos movimentos laterais, vamos remover esses contatos e todas as trajetórias que criem vetores de força não uniformes.

 

Da mesma maneira, precisamos acompanhar os pacientes bem de perto no primeiro mês: a confiança para mastigar aumenta, e os “genocídios alimentares” (aquela vontade de rasgar a coxa de frango como se o paciente estivesse num filme de capa e espada, ou abrir a tampinha do refrigerante fazendo alicate nos incisivos centrais, são possibilidades comuns).

 

Agora está claro porque o ISQ é mais próximo da estabilidade do implante do que o valor de resistência ao cisalhamento (N.cm).

 

Mesmo assim, quantos profissionais usam um aparelho analisador de frequência de ressonância na prática diária? Alguém tem essa estatística? Quando as coroas estão cimentadas, nada de ISQ para comparar com os valores iniciais.

 

Teste de contratorque nos implantes dentários? Nem pensar, ninguém vai se atrever a “pegar o elevador para o andar de baixo”, né?


Tudo isso é um exemplo prático de como três conceitos simples podem se misturar deixando nosso dia a dia bem esquisito.


Está bem, então agora a gente pega uma carona no túnel do tempo e volta para o ano de 2005 para entender porque a estabilidade primária (a rigidez interfacial) do implante dentário é tão fascinante, e como o ponto de partida para as diferenças observadas na clínica precisa ser traçado com muito cuidado.


Implantes de "conexão interna"?


Na virada para os anos 2000, surgiu um implante dentário com roscas duplas, mais áreas de rosca na região apical, e uma diferença interessante: o montador agora seria uma "chave de acoplamento interno".


Sim, estou falando do MKIII, fabricado pela empresa clássica que todos nós conhecemos na Implantodontia.


Os pilares protéticos mantinham suas conexões acima do pescoço do implante, mas a cirurgia já era realizada sem o famoso montador. Essa chave proporcionou um ganho de tempo e provavelmente o direcionamento do implante dentário dentro do osso.


Como vamos determinar os valores ISQ?


Voltando ao estudo publicado em 2005.

A preocupação não estava no "como", mas "por onde" começar.

Dois modelos mandibulares foram criados: um macio e outro rígido.


Os implantes era de 3,75mm ou 4,0mm, nos comprimentos de 10mm, 13mm, 15mm, 18mm, determinando que a altura mínima para um paciente receber um implante dentário seria de 7mm.


Além disso, as medições foram registradas nos sentidos mesiodistal e vestíbulo-lingual.


Essas médias seriam usadas para verificar a reprodutibilidade do dispositivo de mensuração.


Carga ou carregamento imediato?


Da língua inglesa, "loading" significa carregamento, mas também representa uma ação contínua. Do ponto de vista biomecânico, seria importante pensarmos que a carga, na verdade, é carregamento, já que os pacientes mastigam.


Os valores ISQ de referência nos modelos sintéticos?


Lembrando mais uma vez que esses implantes dentários são cilíndricos:


Valores ISQ , implante MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI, 2005.
Valores ISQ , implante MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI, 2005.

Valores ISQ, implante MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.
Valores ISQ, implante MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.

Os valores de referência preditivos para os pacientes?


Após analisarem os dados ISQ referentes à localização, gênero, e qualidade óssea nos pacientes, foram definidos os valores preditivos:


Valores preditivos ISQ, implantes MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.
Valores preditivos ISQ, implantes MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.


Valores preditivos ISQ, implantes MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.
Valores preditivos ISQ, implantes MKIII. Modificado de Balshi et al., IJOMI 2005.

Conclusões

  • os valores ISQ mostram um declínio nos primeiros 30 dias

  • essa estabilidade cresce no segundo e no terceiro mês.

  • pelos dados acima, sugere-se que esse metabolismo ósseo na interface osso / implante não seja perturbado pelo menos por 60 dias.

  • ossos tipo 2 e 3 retornam mais à estabilidade primária do que os tipos 1 e 4, sendo mais indicados ao protocolo de carga imediata.

  • entretanto, a osseointegração pode ser obtida em todos os tipos, apesar dos valores baixos de ISQ e de nem todos valores retornarem aos seus níveis iniciais.

  • mesmo dentro dos valores preditivos, os implantes podem falhar por micromovimentação.

  • os valores preditivos mais importantes são os que estão em áreas de osso macio, osso reduzido, e situações com braços e alavanca extensos




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